Crônica

7 de dezembro de 2017

Ontem, dia 8 de dezembro, eu acordei e corri direto para a janela. A algumas noites atrás, o noticiário avisou que provavelmente começaria a nevar na sexta-feira, e eu acordei me sentindo num filme natalino estrelando a cena da manhã tão esperada.

Com direito a correria para sair da cama, descer as escadas, abrir a porta da frente e, apesar de não encontrar o tapete branco que eu tanto esperava, encontrei coisinhas leves e brilhantes caindo do céu. Ainda não era a cena de filme completa, mas os flocos de neve eram reais. 

Passei o dia olhando para a janela, assim como uma criança pequena passa o dia todo com os olhos grudados na tv assistindo seu filme favorito. Eu não desgrudei daquela janela até que o sol já estivesse indo embora.

Durante o dia todo eu fiquei de pijamas, com meias nos pés e sempre com alguma bebida quentinha nas mãos. Estiquei minhas pernas no paradeiro, me encaixei na cadeira e ali fiquei, vendo cada floco de neve que caía e se acumulava aos poucos no telhado à minha frente. O dia terminou e o meu tapate de neve não tinha acontecido.

Hoje, dia 9 de dezembro, eu acordei e me espreguicei por vários segundos, aproveitando a gostosa sensação de saber que não há nada para fazer. Me aconcheguei nos lençóis e alcancei o telefone. Desde que me mudei, desenvolvi uma mania que todos já tinham por aqui e, por mais que eu não entendesse pra quê, agora eu vejo que é mesmo bem útil.

Até antes de abrir as redes sociais – juro – eu abro o aplicativo do tempo. Eu nunca tive esse costume antes porque não era preciso. Em Goiânia você acorda, esfrega os olhos, olha para a janela e percebe que, assim como todos os outros dias, o sol de rachar vai aparecer lá fora!

No máximo que uma chuva caia, não é necessário que um aplicativo te avise, porque todas as pessoas ao seu redor vão te avisar. Vão falar que vai cair um toró. Vão falar, ih tá chovendo. Vão falar que está caindo o mundo! E quando acabar, vão falar: menina, você viu a chuva que caiu? Em Goiânia, nem de longe é necessário qualquer tecnologia climática.

Porém, por aqui, é costume. Se você quer saber como o tempo vai estar daqui algumas horas, o aplicativo te conta. E acontece. Porque por aqui não é sempre que faz solão, a chuva tem horário pra cair e o tempo nublado tem hora pra acabar. Por isso, quando acordei hoje, com as janelas fechadas e a cama tão quentinha, eu não fazia ideia do que estava acontecendo lá fora. 

Quando vi o aplicativo dizendo que o dia estava nublado, antes mesmo de abrir outras coisas, eu me aninhei mais um pouquinho entre o travesseiro e o lençol, dali eu não saia e dali nada me tirava. Em menos de 3 minutos uma mensagem com uma foto chegou. “Esse é o nosso jardim da frente. Vá lá fora e você vai ver.”

Em menos de uma fração de segundos, a preguiça e o aconchego não existiam mais. Eu estava de novo numa cena de filme natalino. Eu, literalmente, pulei da cama e alcancei a janela. Eu sei que você está visualizando isso de algum filme clichê que já tenha visto, mas foi assim mesmo que aconteceu! 

O meu tapete de neve tinha chegado! (!!!!!!!) Estava tudo absurdamente branco lá fora, as árvores, as folhas, a grama e os telhados. Tudo estava coberto com os flocos de neve acumulados que caíram durante a noite inteira! O noticiário se atrasou por um dia, mas o aplicativo realmente não mentiu quando disse que o dia estava nublado. Quem precisa de sol quando um incrível tapete branco está reluzindo, relefletindo e iluminando tudo ao redor?! 

No dia 7 de dezembro, o frio e os ventos gelados já tinham chegado. Eu fui acordada com beijos de aniversário e passei o dia recebendo mimos. Almoçamos fora e minha tia conseguiu me surpreender com uma sobremesa acompanhada de palmas e parabéns. Mais tarde, um bolo, mais parabéns e um brinde de espumante fecharam a minha noite. Eu estava tão feliz.

Já faz alguns bons anos que eu não mantenho minha data de aniversário em redes sociais, então quando esse dia finalmente chega e eu recebo mensagens, ligações, posts com fotos e todo tipo de lembrança me parabenizando, é algo que deixa meu coração quentinho de tanta felicidade. Porque eu sei que cada uma daquelas pessoas que vieram até mim, é porque realmente lembram, sem nenhuma ajuda, de aquele dia tem a minha cara.

Eu nunca fui muito chegada em fazer aniversário. Por mais que eu aproveitasse até não dar mais todas as minhas festinhas de criança, depois que passou essa fase, algo dentro de mim foi percebendo que “fazer aniversário” nem era algo tão bom assim.

Eu juro que entendo todos que gostam, entendo quando dizem que é motivo de celebração, entendo tudo e todos os argumentos que dizem o quanto é incrível gostar do próprio aniversário. Mas não é que eu não goste de celebrar, reunir todos que eu amo e cantar parabéns. Eu só não gosto de toda essa pressão, entende?

No começo, quando eu criei o blog, ninguém entendia de primeira o que o nome significava. A dois dias atrás, neste meu último aniversário, praticamente todos me desejaram não um feliz aniversário, mas sim, um feliz Sete Doze. E eu acho que isso, foi um dos meus melhores presentes.

Ainda mais depois de ter criado o SeteDoze, comemorar o meu sete/doze ficou ainda mais difícil. Quando o ano começa a acabar, eu demoro bastante pra me lembrar do que vem se aproximando, acho que meu corpo e minha memória já estão treinados pra não me fazer lembrar.

Mas quando eu lembro, o que acontece dentro de mim, é inexplicável. E quanto mais eu tento explicar e, fazer a todos que percebem essa mudança, tentarem entender, tudo se complica ainda mais.

Acho que depois desse ano, com tanta coisa que já aconteceu, ainda está acontecendo e com os vinte e dois anos recém completados, eu conclui que é mais simples pra mim, e pra todos, dizer apenas que é um período complicado. E que depois de todo dia 7 de dezembro, essas complicações vão passar. Desde sempre foi assim, e sempre vai ser.

E a melhor prova que eu poderia ter tido de que tudo, absolutamente tudo, passa é que o meu aniversário passou. Outros dias passaram. E alguém lá de cima, que viu tudo isso acontecendo, me mandou o presente mais inesperado que eu poderia receber. O meu tapete de neve.

E só agora, escrevendo esse texto de aniversário atrasado, é que eu percebi, mais uma vez, que as minhas constantes conclusões sobre a vida continuam sempre se repetindo.

Nós não carregamos um fardo maior do que somos capazes de carregar. Tudo acontece sempre na hora certa e no lugar certo. E se o que você tanto quer que aconteça ainda não aconteceu, é porque ainda não é pra acontecer.

Quem me mandou o meu tapete de neve sabia que eu precisava passar pelo dia setedoze primeiro, antes de continuar a minha jornada. Nos últimos dias antes dessa data eu percebi o quanto eu precisava me despedir dos meus 21 anos. E assim eu fiz. Finalmente respirei fundo, fechei os olhos e esperei a meia noite chegar com os meus dois patinhos na lagoa.

Eu percebi que todos os choros soluçados, todas as lágrimas derramadas, todas as risadas que me deixaram sem fôlego e todos os difíceis aprendizados, precisavam ficar pra trás. E agora, só viria comigo o que eu aprendi com tudo isso, mas esses momentos não existiriam mais. Porque só agora, de coração leve e alma firme, é que eu entedi que muita muita muita coisa, ainda está por vir. 

Crônica

Sobre Escrever

É com muito conflito de emoções que eu finalmente decidi começar esse texto. E repetindo algo que disse alguns instantes atrás, escrever alguma coisa é melhor do que não escrever nada. Continuo repetindo até que eu me convença. Apesar de não parecer, além dos incontáveis conflitos, é também com muita saudade que eu inicio esse texto ouvindo o barulhinho que eu mais amo ouvir nesse mundo: os meus dedos no teclado.

A primeira vez que eu pensei em escrever esse texto, ele na verdade se chamaria “Escrevendo por Extenso”. Na minha cabeça, seria o título perfeito para começar com impacto suficiente o desafio que eu ainda não sei se vou mesmo me propor a fazer ou se vou continuar fugindo de algo que eu mesma estou me perseguindo.  Se não fizer sentido pra você, pra mim faz.

A ideia do primeiro título era falar sobre a primeira vez em que eu aprendi o que significava escrever por extenso. Eu me lembro de estar no ensino fundamental, numa aula de matemática, sentada mais ou menos no fundo da sala e sempre perto da janela, com uma professora que se chamava Ádria.

Era bem comum, principalmente nas aulas de matemática – talvez apenas nessas aulas – que a professora me chamasse a atenção por diversas vezes. E por mais que eu não me lembre ao certo o que eu tanto pensava naquela época, eu posso pelo menos afirmar que, com certeza, não era sobre números.

Mas foi numa dessas aulas de matemática que tudo mudou. A minha cabeça que por vezes voava pra fora da sala através da janela e vivia tantas coisas dentro da minha imaginação porém mundo afora, ficou abismada com algo que descobriu. Os números podiam ser escritos. 

Eu lembro de achar um absurdo que eu nunca tivesse parado pra pensar que aqueles números, anos, medidas, quantidades, tabuadas e exercícios, que eu tanto detestava, realmente poderiam ser escritos em palavras e não só numerais. Claro que naquela época o meu pensamento não era com esse vocabulário, mas eu me lembro de ficar chocada, intrigada e surpresa de descobrir que os números também tinham um jeito próprio de se escrever. 

Parando pra pensar agora, dá pra tentar entender que faz mesmo sentido eu ter ficado tão fascinada com a minha descoberta, e de uma coisa tão “simples” me trazer lembranças até hoje. 

Naquela minha cabecinha de criança, lugar de número não era junto com as palavras, justamente porque eu nunca tinha visto o inverso. Em livros infantis, não é sempre que se encontra um número escrito por extenso, e por isso, ter descoberto que eles tinham nomes e que era possível que eu aprendesse a escrevê-los, me pareceu coisa de outro mundo.

Acho que a partir daquele momento eu percebi que, se era possível encontrar a escrita até na matemática, então era possível que eu a encontrasse em qualquer lugar. E mesmo que eu ainda não entendesse o quanto escrever, já era, e ainda se tornaria tão importante pra mim, a minha descoberta despertou em mim algo tão incrível e tão louco, que até hoje eu ainda tento entender por completo.

Já faz um tempo que eu queria voltar a escrever, e não sabia como. Nesse período, zanzavam na minha cabeça todos os tipos de possibilidades. Se eu volto fingindo que nada aconteceu, e apesar de ter acontecido, eu não sei explicar o quê aconteceu. Se só volto quando eu conseguir explicar o que aconteceu, mesmo que eu não tenha que dar satisfações sobre isso a ninguém e também, porque eu duvido que alguém se importe.

Se eu simplesmente esqueço tudo o que eu já escrevi aqui, apago da minha memória que um dia este blog existiu, crio outro lugar para escrever e começo tudo de novo, só para não ter que encarar a realidade de que um período de hiato inevitável acabou acontecendo. Todas essas, e outras tantas infinidades de loucuras, me atormetaram por todo esse tempo.

Quando eu digo que queria “voltar” a escrever, só de pensar nessa frase, eu sei o quanto ela está errada. Eu me lembro de uma vez em que uma amiga me disse que eu pensava escrevendo. Que os meus pensamentos eram como uma máquina de escrever e que tudo o que eu pensava, de alguma forma, estava sendo escrito ao invés de somente pensado. Criando textos, roteiros, falas e frases de efeitos.

Por isso, toda vez que eu digo que queria “voltar” a escrever, eu sei que dentro de mim, eu nunca parei.

Escrever. Escrita. Letras. Palavras. Frases. Larissa.

Todas as formas acima são jeitos certos, ainda que diferentes, de dizer a mesma coisa. 

Sou eu, me escrevendo por extenso.