Caça Aos Murais

Quando eu era criança, eu me lembro de ouvir alguém dizer, em algum momento dessa fase, que algumas pessoas viam a vida de um jeito “cor-de-rosa”.

Demorou algum tempo pra que eu finalmente conseguisse entender que dizer isso, era na verdade, uma expressão para se referir a pessoas que viam a vida de uma forma diferente, quase ingênua. Sempre enxergando o que todos viam mas com olhos que só essas pessoas tinham. Olhos cor-de-rosa.

Desde que ouvi isso, e desde que desmistifiquei o que ouvi, eu nunca mais me esqueci. Desde sempre e até hoje, eu me pergunto se o que eu vejo é o mesmo do que todo mundo também vê.

Eu não me canso de ouvir todos dizerem que eu vivo num mundo só meu. Ouço todos falarem que esse “mundo” dentro da minha cabeça me tem por mais tempo do que o mundo que todos chamam de “vida real”.

Por exemplo, não há uma só vez em que eu ande de carro, e vejo a vida passando rápido pela janela, que eu não me lembre sobre a tal expressão dos olhos cor-de-rosa.

Por muitas vezes eu precisei de mais tempo do que o necessário para me convencer de que os meus olhos não tinham uma retina especial, uma película invisível ou uma lente natural de cor diferente.

Tudo para que eu me convencesse de que, o que eu via janela afora, era exatamente igual ao que todo mundo via. Mas acho que não seria uma surpresa descobrir que até hoje eu talvez me pergunte: será mesmo?

Apesar das loucuras e relevando as doidices, é um fato que algumas coisas que eu vejo, outras pessoas simplesmente não veem. E sim, também vice-versa.

Enquanto minha mãe dirige pedindo que eu preste atenção tanto em quem está na calçada quanto nos carros, motos e pedestres na rua, é bem provável que eu esteja prestando atenção em uma árvore florida em frente a uma casa perceptivelmente antiga, com um portão digno de casa-de-vó.

E enquanto observo as florzinhas, eu me pergunto se ali mora mesmo uma avó, e se aquela árvore tem alguma história, ou se ela nasceu sem querer e sem querer por ali ficou. Talvez fotos de família tenham sido tiradas junto daquela árvore e fico querendo saber se aos domingos, quando os netos pequenos vão almoçar, de longe eles reconhecem a casa da avó por causa da árvore florida.

Então o sinal abre, a árvore fica para trás, eu tento voltar a prestar atenção em minha mãe dirigindo e daquele segundo em diante eu provavelmente não me lembrarei mais daquela árvore. Assim segue a minha cabeça por todo o trajeto, durante todas as paradas, por todas as vezes em que eu ando de carro.

Desde que cheguei em Austin, comecei a pesquisar sobre todas as coisas legais que acontecem na cidade, e é uma unanimidade por todos os sites e posts, a indicação de que todos saiam, pelo menos uma vez, pela caça aos murais.

Eles se espalham por toda a cidade. De norte a sul, é possível encontrar paredões gigantes, preenchidos com desenhos tão grandes quanto às paredes, feitos com infinitas cores, todos em grafite.

Na realidade, quando Viviane, a amiga do meu pai que está se aventurando comigo, me disse que estava de bobeira alguns domingos atrás, e que super animaria de ir à caça dos murais comigo, eu não conseguia imaginar que seriam tantos.

Começamos com alguns que estavam por perto e por mais que eu tentasse localizar todos, chegamos a um ponto de tamanho desespero por encontrar o máximo de desenhos possíveis antes do sol ir embora, que já não nos restava senso de direção para percebermos que estávamos dando voltas e voltas no meio de Downtown e nos arredores.

Os posts que eu encontrei não conseguiram organizar as imagens por localidades próximas. Ou seja, saíamos de uma, íamos para outra, e quando chegávamos em alguma outra percebíamos que já tínhamos passado a metros dali.

No fim do dia, estávamos piores do que duas baratas tontas. Mas todas as fotos incrivelmente lindas fizeram tudo valer a pena.

Passamos nossa tarde nessa gostosa correria. Achando uma parede linda, tirando milhares de fotos, correndo de volta para o carro evitando pagar estacionamentos e imediatamente procurando uma nova ilustração escondida pela cidade.

Literalmente escondida! Muitas artes estão em estacionamentos, atrás de restaurantes, no meio de uma calçada ao longo da rodovia, em ruas sem saída ou dentro de becos não localizados no gps.

E mesmo tendo visitado X lugares diferentes, ainda não conseguimos encontrar todas. Talvez, nunca conseguiremos. E quem sabe, seja justamente essa a graça.

Estar dentro da minha cabeça é quase como estar numa caça aos murais coloridos dentro de uma cidade inteira! Existem um milhão de coisas acontecendo enquanto você procura por estes murais. As pessoas dessa cidade estão trabalhando, resolvendo problemas, se exercitando e simplesmente vivendo.

Mas enquanto tudo isso acontece, a sua atenção está naquilo que todos eles não vêem. A atenção da minha cabeça está naquilo que todos eles veem todos os dias, e por isso não são capazes de pararem para ver! Árvores floridas ou muros coloridos.

Uma parte de mim não consegue parar de tentar me convencer o quanto eu sou louca e o quanto todos estão certos em dizer que existe mesmo uma realidade paralela dentro de mim, e que somente os meus olhos são capazes de ver. O fantástico mundo que só eu habito.

Mas outra parte de mim, os ouve falando e ri disso tudo. Com óculos escuros de lentes cor-de-rosa, os braços apoiados e as pernas para cima, essa parte de mim abre um sorriso largo e torce para que apesar de tudo, eles estejam completamente certos. E que esse mundinho que realmente existe, nunca mude.

Essa parte de mim espera que esse mundo, que por enquanto só eu habito, aos poucos se expanda. E quem sabe um dia, eu consiga trazer outras pessoas para dentro dele. Para morar, viver e abrir os olhos e enxergar tudo aquilo que eu vejo! A vida toda de um jeito diferente.

Eu posso garantir com toda certeza que a minha sanidade mental me permite ter que, aqui dentro de mim, a vida também não é cor-de-rosa.

Mas em compensação, todo o resto se resume a um universo inteiro repleto de muros coloridos, desenhos gigantes, árvores lindas e uma imaginação completamente sem fim.


OS MURAIS




Greetings From Austin
720 S 1st St.
– A arte está bem no meio da rua e não é tão grande quanto parece, mas consegue ser mais linda pessoalmente do que pelas fotos.





You Make My Heart Sing
Threadgill’s, 301 W Riverside Dr
– É difícil achar esse mural apenas jogando o endereço no GPS! Ele está dentro do restaurante Threadgill’s, bem na entrada. Então, estacione o carro, ande alguns metros e ele aparecerá!





Cat!
E 6th St & SB I-35 Acess Rd
– Quando a ilustração é linda, imensa e ocupa um paredão inteiro dentro de um estacionamento, o desafio é sair legal na foto enquanto tenta pegar a arte toda.





Cat! part.2
E 6th Street
– Continuação do paredão que começa no estacionamento e segue pela avenida.





Cat! part.3
E 6th Street
– Outra tentativa de pose com enquadramento.





Quiet The Mind
717 E 7th Street
– Eu acho que vi um gatinho num posto de gasolina.





Esther’s Follies
525 E 6th Street
– Essa foto deu início a minha alegria de conseguir sentar para tirar fotos e ainda interagir com os murais!





Howdy Austin!
601 W 6th Street
– Quem me vê rindo com essa parede enorme no meio da avenida, nem imagina que eu tive que pedir pra um moço não aparecer na minha foto. 





Kung Fu Saloon
5th & Rio Grande
– Falha tentativa de copiar as artes marciais.
E não, nenhuma roupa íntima foi exposta durante essa sessão de fotos.





Kung Fu Saloon
5th & Rio Grande
– Pode parecer que não, mas a pose foi realmente espontânea.
A arte está na fachada inteira do estabelecimento do lado direito, no estacionamento.





Janis Joplin
E 7th Street
– Se não deu pra perceber, você precisa conferir pessoalmente, mas essa ilustração é gigantesca! Tem outro músico ao lado da Janis, caso você o conheça me diga quem é.




Charly & Margdu
6th & 7th
– É essa arte que determina o comecinho de um beco muito incrível.




– Sempre quis uma foto assim.





– A vida é muito curta pra ter vergonha de tirar fotos no meio da rua fazendo poses de modelo. Apenas faça.





I ❤ Austin
East 11th Street
– Fique atento quando estiver descendo a avenida, sentido ao Capitólio. Essa arte linda estará do seu lado direito, bem em frente às vagas de estacionamento na própria rua.
P.s: Eu estou apaixonada por ela.





Mexic-Arte Museum
419 Congress Ave
– Tente ao máximo visualizar uma fachada inteira com artes da cultura mexicana, e quando visitá-la me conte se amou como eu amei.





– Fala sério, olha essas cores.






– Eu amei essa foto!
Artista @reezruiz



 



914 N Lamar Blvd
– Fique de olhos nos estacionamentos!





– As fotos espontâneas são as melhores.





– Você precisa assumir que tem que ser muito genial para combinar galos com guitarras e fazer essa ideia ficar linda.





Pizza & Astronaut
1209 Red River Street
– Eu nunca pensei no quanto estacionamentos poderiam ser surpreendentemente lindos.





Whale





Punk by Truth





– Esse é só o começo da Guadalupe Street!





“Ele sorri, mas ela não vê”
Artista Briar Bonifacio
– Eu acho que acontece é o contrário…





Wasabi
Artista @dearninja





“Sorria agora. Chore depois.”
– Ou só sorria mesmo.





– Já é meu gatinho favorito.





Cat + Friends
2426 Guadalupe Street
É lindo, né?





Austintatious
23 rd St Artisan Market, 23rd & Gudalupe
– Eu acho que não dá pra ver, mas esse riso é de desespero porque nesse momento eu estava escorrendo e quase caindo.





– Essa arte imensa está dentro de um espaço aberto, provavelmente usado por feirinhas ou foodtrucks. Pretendo descobrir. 





– Poucas pessoas vão perceber, mas existe uma pomba voando nesta foto.





– Grandes paredes ilustradas foram feitas justamente para poses assim.





– Lembra dos lugares para sentar?





Hi, How Are You
Guadalupe & 21st
– Foi quase um “How You Doing?”





É difícil descrever a minha raiva quando vi que violaram essa ilustração. Mas ainda assim, fiz questão da foto justamente para mostrar que ela continuou sendo incrível.



DICAS!

  • Pesquise todos os murais que deseja procurar e anote as suas localidades! Não siga o meu exemplo e evite dar voltas desnecessárias pela cidade.
  • Use sapatos e roupas confortáveis, a caça aos murais fica cada vez mais divertido então vá preparado.
  • Não saia de casa sem protetor solar e não esqueça de levar água. É sério, o calor daqui é muito quente!
  • Descarregue o celular antes de ir à caça, não tenha vergonha de fazer poses e se divirta!

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Mount Bonnell

 

Eu sempre fui apaixonada por terraços. Me falha a memória quando tento lembrar como foi que isso começou. Eu não sei dizer qual foi a sensação de ver pela primeira vez, a vida mais perto do céu.

Como foi conseguir olhar para o infinito e além, e ao mesmo tempo, ver os carros, as pessoas, as luzes e todos os ritmos frenéticos que dividem o espaço estando acima e abaixo de nós. Eu apenas me lembro de sentir uma liberdade imensa por ter descoberto que era possível ver a vida, desse ponto de vista.

Foi enxergando tudo o que acontecia lá embaixo sob a perspectiva do pico mais alto, que eu fui percebendo o quanto nós somos, literalmente, pequenos.

O tempo que passa muito rápido, a vida que corre mais do que o relógio, sinais que abrem enquanto outros fecham e as noites que parecem se alongar mais do que os dias.

Quando conheci Downtown, uma parte do centro da cidade e com maior aglomeração de prédios, o meu pensamento foi praticamente automático: Será que podemos subir em algum deles? 

Demorou um pouco pra que eu conseguisse explicar o que é que eu tanto queria fazer lá em cima, porque parece que nem todos sabem como é gostoso apreciar a vida desse ângulo.

Por mais que tenham me dito que não seria possível, eu ainda não perdi as esperanças. Em Downtown, os prédios são lindos. E a vista lá de cima deve ser mais linda ainda. 

Quando estou num terraço, minha cabeça esquece todos os limites e, quando percebo, estou ali há horas pensando em absolutamente nada e apenas observando tudo. Pra mim, é incrível conseguir sentir isso.

E foi mais incrível ainda conseguir me sentir assim, no alto do Mount Bonnell.

É possível chegar ao topo, tanto pela generosa escadaria que te leva diretamente ao destino mais alto, quanto pela trilha que além de ser uma caminhada tranquila e com uma subida leve, ainda te permite observar durante todo o caminho a beleza do Colorado River, brilhando tanto quanto o sol e se entendendo pela paisagem até se perder de vista.

Por ser o ponto mais alto da cidade, com 780 pés (237,744 metros), o Mount Bonnel é um mirante a céu aberto que nos permite ter a visão de como o horizonte ao longe é grande e lindo, e de como Austin no meio disso tudo consegue parecer tão pequena, porém ainda mais bonita.

As casas que se dispersam às margens do rio é que trazem a sensação de pequenice para nós que estamos vendo tudo de cima. Tantas pessoas que aproveitam o dia se divertindo nos barcos, praticando algum esporte ao longo do rio, ou apenas deixando o corpo descansar e os pulmões respirarem um pouco do ar tão gostoso e úmido.

Fica difícil conciliar a vontade de estar ali, contemplando o panorama, ou de estar lá embaixo, aproveitando a paisagem e fazendo parte dela.

Se o dia não estivesse tão lindo, com um sol tão brilhante e com tão poucas nuvens no céu, é provável que eu passaria mais horas ali. Porque mesmo sendo acostumada com o calor do cerrado brasileiro, o sol do Texas consegue castigar.

No mesmo domingo em que visitamos a Penny, também fomos conhecer o Mount Bonnell. Os dois passeios são rápidos, apesar de que parece ser uma delícia delongar um pouco mais a estadia, quem sabe num pôr-do-sol, com uma cesta de piquenique, companhias gostosas e risadas melhores ainda. Vale a pena colocar na lista.

Pelo o que percebi, muito dos que já visitaram, tem vontade de voltar. Vi outros também que quase todos os dias dão uma passada por lá. Ter à disposição, uma vista como essa, a poucos metros de casa, realmente é algo que não vale a pena desperdiçar.

Tire um tempo para você. Ache um lugar no mundo que te tire do seu eixo e que te ajude a se organizar. Algum lugar em que você respire e consiga quase explodir os pulmões de ar. Se oxigene e se reinvente. Aonde você for, ache esse lugar. Colecione-os. Volte para visitar. Tenha uma lista com lugares assim e os indique a quem você ama, para que eles também possam conhecer, se lembrarem de você e entenderem a sua vontade de voltar.

Eu coleciono terraços. Lugares altos. E locais que me permitam subir, para esquecer de mim e apenas

observar. Por várias vezes, eu deixo o medo de altura de lado e aproveito o que só ela consegue proporcionar. Liberdade.

O Mount Bonnell, entrou para a minha lista de lugares. E agora, eu o indico pra você.

 


MOUNT BONNELL









 



DICAS!

  • Prefira por visitar o Mount Bonnel em horários mais próximos ao pôr-do-sol, além de aproveitar uma paisagem incrível, seu corpo agradecerá por não encarar tanto sol e calor.
  • Escolha roupas confortáveis e não dispense o uso de tênis.
  • Não se esqueça de levar água! Infelizmente não há lugares disponíveis para compra de bebidas ou comidas.
  • Tire muitas fotos para guardar com carinho essa recordação, mas não vá embora sem ter alguns instantes sem pensar em nada e só observar a paisagem.

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Pennybacker Bridge

 

No final do ano passado, mais precisamente em Setembro, minha amiga Bela decidiu atravessar o Atlântico para passar seis meses chamando Porto, Portugal de sua nova casa.

Depois de todo esse tempo respirando ares portugueses e se deliciando com tantas coisas além dos bolinhos de bacalhau, Bela retornou e documentou sua jornada num livro lindo que você pode conferir aqui. Mas se fosse por ela, estaria por lá até hoje.

Antes de sua partida, eu me lembro de escrever pedindo que ela retornasse com mais histórias na ponta da língua do que presentes dentro da mala.  Mas ela retornou com muito mais do que isso.

Além de voltar com um recorde pessoal de abraços em monumentos históricos e com algumas lembranças de lugares diferentes por onde andou, ela voltou com uma paixão inédita que eu só pude entender quando consegui a minha própria oportunidade de me apaixonar.

Visitando a beira do Rio D’ouro, em Porto, Isabela conta que conheceu a Ponte Dona Maria Pia. Quando ela voltou de viagem e começou a contar suas histórias, tão maravilhada e com tanto brilho nos olhos que naturalmente já brilham demais, eu não entendia o que ela tanto via numa simples ponte.

Até o dia em que conheci a Penny.

Esses dias atrás, Viviane, uma amiga do meu pai, comentou que levaria uma amiga dela para passear e me chamou pra ir junto. Era um domingo de sol com o céu lindo mostrando que o verão estava prestes a começar.

Estacionamos na Loop 360, aos pés de um dos imensos paredões de pedra que se estendem ao longo de grande parte das estradas daqui, e começamos a subir pela trilha bem ao lado da highway (rodovia).

Antes mesmo de chegar ao final, eu já estava maravilhada com toda a beleza ao redor. Mais uma vez eu tive a certeza de que o sol daqui é diferente. A vegetação com um verde tão vivo que parecia estar em festa, celebrando com o dia tão lindo, vibrando com suas inúmeras cores.

Quando chegamos ao topo, as àrvores se abriram para mostrar a plenitude da rocha que se encerrava num desfiladeiro e dividia espaço com as margens do Colorado River, provavelmente há tanto tempo juntos, foram moldando um ao outro.

Foi quando eu a vi. Tão simples, mas tão linda. Logo eu, me apaixonei por uma ponte.

A Pennybacker Bridge, mais conhecida como 360 Bridge, estava lá reluzindo seu aço ao sol e roubando todas as atenções da paisagem natural pra sua beleza tão moderna e urbana.

Ela foi inaugurada oficialmente em 29 de Novembro de 1982 pela prefeita da época, Carola McClellan e aberta ao público para o tráfego em 3 de Dezembro de 1982.

Apesar de não ser conhecida por seu nome original, ela foi nomeada em homenagem a Percy V. Pennybacker Jr., que projetou pontes para o Departamento de Estradas do Texas e foi pioneiro na tecnologia de estruturas soldadas. Assumo que achei seu nome um charme, e tomei total liberdade de apelidá-la de Penny.

Durante aquele dia de sol, sua cor ruiva escurecida reluzia e constrastava com o verde musgo do rio, logo o lado. Sua estrutra tão forte, com cabos que a sustentam e parafusos que a conectam, acabava se fazendo tão delicada ao mesmo tempo que mostrava sua força por estar ali há apenas 35 anos, mas totalmente disposta a permanecer ali por mais 100. Assim espero.

Por ser feita de aço, ela possui um acabamento uniforme resiste à ferrugem, permitindo que ela fique sempre linda, mesmo em contato com as rochas da estrada e com o rio que está embaixo dela.

Esse design mantém o Lake Austin livre de colunas de suporte, justamente porque o Colorado River é usado por todos como espaço de lazer pra mergulhar, andar de barco e se divertir com os jet skis. E até o momento de sua construção, ela era apenas a segunda ponte de seu design no mundo!

O panorama que só é possível ter lá de cima, é praticamente inexplicável. Nada comparado com centenas de outras paisagens dispersas pela cidade ou no mundo, mas a sua simplicidade foi o que mais me encantou.

Um rio. Uma rocha. E uma ponte. Independente de todos os cenários espalhados pelo mundo e de todas as pontes ligando vidas e estradas por aí, para mim, a Penny será sempre um espetáculo inesquecível.


LOOP 360 – PENNYBACKER BRIDGE









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Austin, Texas | O Começo

Pode parecer meio bobo, e eu sei que é um pouco mesmo. Mas, antes de vir pra cá, eu achava que o sol brilhava de um jeito diferente por aqui. As fotos tinham um brilho mais iluminado, as árvores tinham outro tipo de verde, e eu não conseguia imaginar qual era essa diferença toda do asfalto.

Antes de chegar, sempre que eu comentava com alguém que, por algum acaso já conhecia a cidade, a reação era unânime: “Você vai AMAR Austin!”.

Eu assumo que isso enchia de calma, o meu coraçãozinho nervoso que a cada dia estava um passo mais a frente de sair do mundinho que sempre esteve. Essa certeza que todos me passavam, com tanto entusiasmo nos olhos e alegria na voz, fazia o meu peito bater com menos força e com mais alívio.

Desde ontem, eu estou na busca incessante de saber por onde começar. Eu não sei por onde começo a contar o quanto a cidade que eu agora estou começando a chamar de minha, é realmente tão incrível como todos me alertaram. 

O sol realmente brilha diferente, a luz que reflete por todos os lugares me dá a impressão de estar andando sobre uma maquete. Tudo é tão perfeitinho. Nem a grama nasce em algum lugar errado. Há caixas de som espalhadas por aí, e sem que você perceba a cidade tem um próprio som ambiente que não é o som do ambiente. Eu demorei mais do que o devido para perceber da onde isso vinha.

Pelo menos aonde eu moro, tudo é perto mas não tão perto. De carro, é pouco tempo. Mas a pé, é possível porém na medida certa para cansar as pernas e começar a reclamar do calor. Pra eles é normal não ter o costume de andar a pé, mas, pra mim, ter qualquer tipo de limitação é um obstáculo.

Eu comecei a pesquisar sobre como pegar ônibus. Outra propaganda incrível sobre Austin. Os ônibus são adaptados para bicicleta e tem uma linha consideravelmente grande, uma vez que a cidade é imensa. Dias depois da minha pesquisa e da minha animação de ir até Downtown sem precisar de carro, meu pai chega e diz que vai me ensinar a dirigir.

Meu planos de saber como os ônibus e as linhas funcionam ficaram pra outra hora. Porém, até essa história de carro sair, estou pensando seriamente em retomar essa ideia.

Por algum motivo que até eu desconheço, me deu na telha de querer um mapa. Como diz meu pai, bem old school mesmo. Queria um mapa da cidade inteira, e a ideia é usá-lo, rabiscá-lo, amassá-lo inteirinho se for preciso, e depois enquadrar. Eu cheguei com vontade de fazer as minhas histórias. E quero que elas fiquem marcadas, tanto nele quanto em mim.

Escrever sobre um lugar que eu ainda não conheço, não é uma tarefa fácil, mas fica mais simples porque é um lugar que eu estou louca pra começar a conhecer logo!

Querendo ou não, eu e Austin temos uma relação antiga. Meu pai já está aqui há quase 20 anos e, desde que chegou, nunca mais saiu. E eu sempre o ouvi dizer o quanto ele gostaria que eu conhecesse o lugarzinho no mundo que ele escolheu pra viver.

Desde que eu cheguei, não paro de perguntar sobre tudo o que é possível saber sobre essa terra que agora eu vou chamar de minha. Qual a história daqui? Por que os condados ainda são usados? Qual o significado da bandeira? Por que Austin chama Austin? É sério que esse é o mesmo rio? Como pode essa cidade ser tão grande?

Para a decepção de todas as minhas curiosidades, nem todas as respostas sobre tudo o que eu pergunto estão na ponta da língua do meu pai. Apesar de ele me explicar muito, quando uma resposta aparece, outra pergunta se forma. E por mais que eu tenha acabado de chegar, com sede de saber absolutamente tudo sobre onde estou pisando, aos poucos eu começo a sentir menos pressa pra entender e mais vontade de aos poucos, ir apenas descobrindo.


AUSTIN






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P.S: Boa Noite

02h57. Eu perdi o sono pensando na gente. Você sabe que não é a primeira vez.

O meu corpo deita pra descansar e a minha cabeça começa instantaneamente a pensar. Mesmo que eu não queira. Mesmo que eu tente evitar. Eu simplesmente não consigo fechar os olhos e não ver, tão nitidamente, a cena mais linda que eu sempre amo viver. Eu e você.

É normal eu perder o sono me preocupando com a gente. Quando vamos nos ver. O quanto eu quero te abraçar. Como eu vou fazer pra você entender o quanto eu te amo e como eu não consigo nem explicar! São muitas questões. Mas hoje eu perdi o sono simplesmente por pensar em nós.

Me deitei e fiz o sinal da cruz. Fechei os olhos e juntei as mãos dadas. Apertei os olhos, apertei as mãos e comecei a rezar. Rezei por você, rezei por mim, rezei por todos e então rezei por nós. Sem ao menos perceber, minhas mãos e meus olhos e se apertavam cada vez mais. Eu senti meu coração bater e senti na barriga o friozinho que eu só sinto quando estou com você. E agora eu vejo que estava.

Eu estava com você, meu amor. Nós estávamos juntos, num dia – espero eu – não muito longe de hoje. Eu nos vi rindo um para o outro e pude nos ver pelos olhos de alguém que vê essa cena quando ela acontece. Você bem diz que eu sempre vejo a vida por outros olhos. E nós estávamos tão felizes. Nem ao menos dormindo eu estava, pensar em nós dois é sempre sonhar acordada. Dessa vez, me pareceu quase um presságio.

Como posso pensar que não já que estávamos eu e você na presença Dele, num momento tão íntimo como é uma oração. Amor, eu não sei por quanto tempo eu estive assim. De mãos dadas, olhos fechados e sorrindo no escuro. Quase uma criança que pede ao Papai do Céu um presente que quer muito, dias antes de ganhá-lo no Natal. E os melhores presentes que eu poderia ganhar nessa vida, eu já ganhei. Você e a Sara.

Meu bem, hoje eu perdi o sono pensando na nossa felicidade. Escrevendo isso, às 3h20, eu suspiro enquanto lembro de alguns momentos atrás quando te vi com o seu sorriso que eu mais amo nesse mundo. Suspiro de novo só de lembrar. Eu sei que isso ainda há de se repetir. Eu provavelmente ainda vou passar muitas noites sem dormir. Pensando, me preocupando, lembrando ou escrevendo sobre nós.

Mas a vida é tão curta pra não ter noites mal dormidas por conta do amor.

Seja aproveitando a noite em claro, conversando durante as madrugadas, acordando o prédio e os vizinhos, vendo um ao outro dormir enquanto fazemos carinho ou até mesmo escrevendo sobre tudo isso e dedicando cada palavra como uma tentativa de dizer o quanto eu amo a gente, e o quanto eu amo você.

Depois de um tempo, ou no nosso caso, desde o começo, aquelas três palavras não parecem o suficiente. E agora, ainda menos. Ao invés de de dizê-las, eu abdico do meu sono pra tentar descrever como é isso de já ser tão feliz e ter ainda mais certeza do quanto ainda vamos ser.

Amor, a noite continua passando e sono que eu perdi até agora não voltou. Eu sei que já é tarde e aonde você está é ainda mais, mas nada disso  impede que eu sinta que, nesse exato momento, você sabe que eu estou pensando em você.

Eu espero que esteja dormindo bem. Eu espero que acorde bem. E eu espero que quando descobrir esse texto, você sorria ao ler. Porque eu não consigo parar de sorrir desde que comecei a escrever. Eu perdi o sono pensando na gente e, simplesmente amei.

P.s: boa noite amor, fica com Deus.

Minha Própria Gaveta

Esses dias eu estava conversando com uma amiga que infelizmente anda tendo constantes problemas consigo mesma. E quem não tem, não é mesmo? Apesar de tudo, eu adoro ajudá-la. Nem sempre é fácil lidar com aquilo que se passa apenas dentro do coração do outro, mas ainda mais quando é com quem tanto amamos, nós damos o nosso melhor.

Eu adoro ajudá-la porque, querendo ou não, quando percebo, acabo me ajudando também. Os incentivos que eu tento fazê-la engolir goela abaixo, acabam sendo úteis pra mim mesma, em outras situações depois. Como agora.

Ela estava me dizendo como sua cabeça estava fora de foco. Já não nos bastava a nossa visão. E eu, logo eu que tenho a cabeça mais desfocada deste mundo, que não obedece às minhas ordens, e tem um mundo literalmente só seu, soube mais do que ninguém entender o seu lamento.

Nesses momentos, quando nós nos identificamos com os sofrimentos alheios, justamente por também sofrer com os mesmos anseios, acabamos que inconscientemente tentando ajudar a este próximo com palavras e gestos que nós gostaríamos de receber nesses instantes de desespero. Ajuda quem nem sempre recebemos.

Assim como eu, essa amiga também ama escrever. E escreve divinamente bem, por sinal. Eu inclusive acho que você deveria ler, bem aqui ó. E essas semelhanças não se encerram nas cabeças bagunçadas, no gusto pelas palavras e nas ausências de foco e concentração. Nós somos as partes mais opostas do mundo que só se complementam inteiramente juntas. Com tudo isso, eu sabia exatamente o que ela precisava ouvir.

Antes de tudo, eu pedi que ela tivesse calma. Que respirasse fundo e que tentasse ouvir primeiro o seu coração e depois os burburinhos do mundo. Mesmo sem ter a certeza de que ela praticou este incentivo, eu continuei dizendo: eu confio em você.

Tire a gaveta para organizar. Coloque pra fora tudo o que está te agonizando por dentro. Sente-se consigo mesma e se reorganize para tentar se entender. Eu confio em você. E então eu disse: Escreva. Todo dia um texto diferente.

Uma lembrança. Uma vontade. Um desespero. Uma esperança. Um desejo. Uma satisfação. Um orgulho. Um arrependimento. Um sonho. Um tédio. Um choro. Um sorriso. Uma gargalhada. Um mico.

Eu a fiz me ouvir, palavra por palavra, e insisti querendo um texto sobre cada um desses temas.

Nem imaginava eu, que os conselhos que dei a ela, retornariam tão rápido para mim mesma. Aqui estou eu. Com os dedos no teclado e com um sorrisinho no rosto por estar ouvindo esse barulhinho das teclas que eu tanto amo. E eu sei que no fundo, ela ama também.

Quem escreve com gosto, escreve rindo, escreve chorando, escreve dizendo aos outros o quanto eles deviam escrever mais. Quem escreve com o coração derrama a própria alma nas palavras, e quando não conseguimos praticar esse feito que tanto nos agrada, é como se a nossa alma começasse a ficar inchada.

O excesso de nós mesmos começa a nos impedir de sermos quem nós somos quando estamos com a nossa própria gaveta organizada. Quando não conseguimos ver nas letras embaralhadas tudo aquilo que atormenta a nossa cabeça, esse tormento se espalha. Afeta a visão, os pulmões, e eu diria que até o tato.

Aqui estou eu, me colocando pra fora apenas da forma que eu estou acontecendo por dentro. Conversando comigo mesma e com quem quiser participar dessa conversa. Aproveito para dizer que o conselho que dei à ela, está agora crescendo dentro de mim. Escreve todos os dias. Por que não?

Escrever quando der vontade. E de vontade em vontade, fazer com que a nossa escrita cresça, que a inspiração floresça e que o orgulho de nós mesmas, fortaleça.

Eu espero que a minha amiga melhore. Tanto por dentro, quanto por fora. Espero que ela consiga se organizar. Dentro dela há mais gavetas do que eu até hoje pude contar. Eu sei que é difícil e ninguém disse que seria fácil. Mas o meu papel é estar sempre aqui, quando ela chamar.

Tanto ela, quanto eu mesma. Hoje eu escrevo é pela minha própria gaveta.

Livre Dentro de Si Mesma

Não tem sido dias fáceis. Mas ninguém disse que seriam.

O apartamento vazio, com paredes brancas e janelas abertas, é uma tela em branco desperdiçada por uma criatividade que não funciona. Ela se decepciona. Tanta esperança depositada num tiro em pleno vazio. Passos dados de olhos fechados confiando que a vida continuaria a fornecer os pisos, para que os pés não tropeçassem no meio do caminho. Parece que simplesmente não haviam mais caminhos.

Os dias e as noites se passavam como numa cena de desenho animado. O sol e a lua trocavam de lugar num passe de mágica, o relógio já não fazia mais sentido, e ela continuava ali, sentada, vendo as cores do dia e da noite que se alternavam na tela em branco à sua frente.

Amarelo claro. Amarelo quase branco. Amarelo mostarda. Laranja calmo. Laranja alaranjado. Laranja roseado. Rosa púrpura. Roxo claro. Roxo escuro. Azul marinho. Azul calminho. E de repente, preto escuridão.

Ela não entendia como o tempo parecia se mover, mas ela continuava em constante mansidão. O corpo parecia não obedecer aos comandos de um desespero por não suportar mais tanta pressão. Não fazia sentido. Por que a vida estava indo e a deixando para trás? Seria culpa da vida ou culpa dela de nem ao mesmo tentar acompanhar o fluxo que seus próprios olhos estavam vendo passar?

As dúvidas em sua cabeça eram as únicas vozes que ela conseguia ouvir. No fundo ela sabia que estava se enganando, mas estava tão gostoso. Que mal tem tentar se iludir? Os timbres se revezavam, ora gritantes e estridentes ora calmos e tão pacientes, na cabeça dela tudo parecia funcionar. Era ela e ela mesma. A solução e o problema. Bastava apenas que ela soubesse como começar.

Mas não sabia. Os dias passavam. As vozes falavam. E ela continuava ali. Dentro de si e reclusa por ela mesma. Ela era a porta e a barreira. A passagem e a trincheira. Ela é o seu próprio impulso e a sua própria inocência. Como pode menina, ser tão incompleta mas ao mesmo tempo tão inteira.

Os dias, que continuaram a se passar, aos seus olhos pareciam uma roda incrivelmente gigante em órbita que não parava de girar. Ela estava ali no meio, sem muito entender, e sem fazer muita questão de tentar. Num súbito, tudo parou. E como acorda de um pesadelo, a menina simplesmente gritou.

Chega. Ela não aguenta mais. Ela entende que não é tudo que se pode controlar. Mas ela entendeu que se tratando de si mesma, pertence somente a ela a força e a vontade de querer levantar. E levantou.

Agora, olhando de cima, ela viu como o apartamento é grande. Quantos cômodos ela nem chegou a visitar. Quantos caminhos ela não viu por simplesmente não ter coragem de enxergar. Estavam logo ali, bem na sua frente. Ter essa primeira visão, de outra perspectiva que não a antiga, a fez perceber o quanto ela perdeu por estar aqui, mas estando ausente.

As paredes brancas continuaram a refletir as luzes que nela reluziam. O teto agora não parece mais tão distante do chão. Os pés agora pisam e sentem onde será o passo seguinte. As janelas que sempre estiveram abertas, agora ventam. Não porque antes não ventavam, mas sim porque ela não estava na direção certa para sentir a brisa que agora lhe abraça.

De tudo o que ela poderia sentir, alívio foi o que ela conseguiu definir. Ela poderia ter tido raiva de não ter feito tudo isso antes. Ela poderia ter sentido tristeza em pensar em tudo o que deixou passar. Ela poderia ter sentido medo de simplesmente não saber o que há pela frente. Ela poderia ter desistido e não ter confiado de que ela é capaz de finalmente estar consciente.

Mas foi alívio. Foi suspiro fundo e sorriso nos lábios. Foi riso frouxo que libertou a risada. Foram os pulmões dançando dentro de si e os braços balançando pra onde quisessem ir. Foi levantar de pálpebras, abrir de olhos e iluminar a própria mente.

A menina que estava presa, descobriu como que é ser livre dentro de si mesma.

O Conjunto de Fatores


Às vezes eu paro e espaireço. Respiro fundo e resolvo que é hora de dar tempo ao tempo. Deixo literalmente para amanhã, o que não pode ser resolvido hoje.

Existem certas coisas que não dependem diretamente de nós, e das nossas ações. Não há o que a gente faça para que essas coisas aconteçam. Elas têm hora pra acontecer. E a surpresa da vida é justamente que nós nunca sabemos quando.

Essas certas coisas dependem mais do universo do que de nós. Estão completamente entregues à força do subjetivo. E um dia, quando resolvem acontecer, no fundo nós sabemos que foi obra das nossas energias, do tempo e do destino.

Nós fazemos a nossa parte. Mas apenas a nossa parte. Não há sorte nos elementos dessa história. O conjunto de fatores são o nosso suor e a nossa vontade. E por mais que os dois componentes venham de nós, nós só temos controle de um deles.

A vontade é espontânea, totalmente involuntária. Ela sai de nós através de pedidos desesperados no meio de uma tarde de trabalho, pelas orações esperançosas que retiramos de nós e entregamos ao vento e pelos impulsos acelerados de um coração que bate mais rápido quando pensa na realização de um sonho.

O suor que escorre da testa, desce pelas costas e aloja forças exageradas nos joelhos cansados ao fim do dia, é a nossa responsabilidade sendo exercida com louvor.

Nós estamos fazendo de tudo o que está no nosso alcance. Tudo o que sabemos fazer e tudo o que nos viramos pra aprender ou descobrir. Nós fazemos. Nós tentamos. E não desistimos.

Unimos forças que não sabemos da onde vem, usufruímos do último suspiro de fôlego pra conseguir mais alguns passos, colocamos nosso sangue à flor da pele apenas para seguir, um pouco mais, em frente.

Quando queremos, simplesmente fazemos. E no meio disso tudo é quando as vertentes se encontram. A ordem dos fatores resultando no mesmo produto. O seguimentos retos finalmente fazem a curva.

O suor e a vontade se ajudam. Enquanto misturamos o sangue às lágrimas, o nosso coração se acelera. Quando a paciência ameaça se esgotar, sussurramos pedidos de fé. E quando o dia se encerra, as nossas forças se renovam. Usamos, todos os dias, todas as nossas últimas energias para pedir que o dia seguinte seja menos pior. Em dias de muita esperança, pedimos pelo melhor.

Somente quando não sabemos usar as palavras, quando a garganta não sabe se respira ou se chora, se vomita ou se engole, quando os olhos se forçam para não deixar escapar tudo aquilo que o corpo inteiro não aguenta mais segurar, é quando rezamos e imploramos por um milagre.

Depois de passar por todas essas fases, quem nos encontra é o consentimento. A sensação de que a nossa parte, nós fizemos. Tudo o que podíamos, nós demos. E então aqui estamos, aguardando pelo contentamento.

São nessas horas que eu paro, e espaireço. Eu sinto quase o meu coração dizendo, calma. Agora o que te resta, é aguardar. Nessas horas de espera, vale o ócio ou também vale a singela paz que se permite nos invadir e nos acalmar por estarmos, por alguns instantes, não fazendo “nada”.

É preciso deixar a vontade trabalhar. Distribuir pela vida e pelo universo tudo o que nós acumulamos. Tudo o que despejamos aos céus e que pudesse ser usado na hora certa. E a hora é agora. Respire fundo e tente ao máximo sentir dentro de si a pulsação que agora é mais leve, ainda preocupada porém mais discreta.

Nessas horas é a esperança acalentando o coração, o fazendo deitar em seu leito e simplesmente pulsar com menos agitação.

Calma. Tudo vai ficar bem. E de repente, fica.

Contigo Eu Acredito que Consigo

Ele tem a paciência que eu queria ter comigo. Ele me olha, ele me vê. Ele passa os olhos sobre mim e enxerga tudo aquilo que eu sou incapaz de perceber. Ele diz que vê beleza em mim. Ele diz com os olhos, com a boca, com o fôlego que lhe falta quando diz que está apenas me olhando. Esses olhos terrosos que me comem por fora e me amam por dentro. E revezam. E me dilaceram. Eu me desespero. Em sentir teus olhos me desnudando e com todas as forças eu tento esconder minhas vergonhas, mas ao mesmo tempo, não quero que você pare de se aventurar em mim. Quero que continue aqui. Quero que fique em mim. Eu quero ver em mim o que eu vejo em ti. O que eu vejo no reflexo da tua íris, a luz no fim da tua pupila, que me chama pra me mergulhar em você. E a me achar em ti. A escorregar no teu rosto, deitar nas tuas bochechas e me degustar na tua boca. Tua fala me diz tudo o que eu sempre quis ouvir mas a barulheira que me ensurdece por dentro tenta me fazer não acreditar. Jamais duvidar! Eu não duvido. Eu juro. Eu vejo na tua face o contorno da verdade. A felicidade misturada com desejo que com cuidado e delicadeza tentam a todo custo exterminar os meus receios. E eu creio. Eu aceito a cruz que me foi dada e decido fazer dela um destino e não somente uma parada. Contigo eu acredito que consigo. Porque eu já sei que sim e você me confirma a certeza. Que ao seu lado eu vejo essa tal beleza, que você tanto vê em mim, mas que eu agora começo a ver em mim mesma. Ele diz que independente de tudo nós continuamos a ser o que já somos. Com um sorriso eu discordo. Por causa de tudo nós vamos continuamente ser aquilo que ainda não somos, mas que seremos, de todos os jeitos seremos, com o resultado de todas as circunstâncias que ainda passaremos, no fim, no meio e no começo. Nós seremos. Tão absurdamente felizes, que ainda nem sabemos. E o que já somos é apenas o convite para o nosso próprio evento. Sozinha eu consigo ir, como há tanto tempo já fui. Já caminhei e voltei, mesmo prometendo não voltar, ali eu estive mais uma vez dizendo e repetindo que não queria estar lá. Mas estive. E por muito tempo não sabia que outra vida existia. Mas agora eu sei. E sei que de todas as vidas que já tive. Nessa vida e em outras. É contigo o meu lugar. Porque sozinha eu posso ir e sei que consigo seguir, mas é contigo que indo é mais longe o futuro que podemos alcançar. Assim como nessa, e em todas as outras, o meu destino é te encontrar. Ou ser encontrada. Talvez nós revezamos. Assim como meus olhos revezam com os seus e os meus lábios alternam nos teus. O meu tom de leite que contrasta na sua cor de café. A nossa mistura é tão linda como nada mais é. E se aqui estamos é porque Ele quis que estivéssemos. Porque Ele sabe do que não sabemos e Ele sabe que no fundo nós sentimos. O que nós chamamos de amor é o que muitos chamam de fé. Você aqui por mim. Eu aqui por você. Pra você. Pra sempre. É aonde vamos estar. A minha insegurança sendo esmagada pelo seu carinho. E a minha confiança em você te mantendo sempre em frente, abrindo os nossos caminhos. O que começou como um desabafo de tristeza agora se encerra como um suspiro de alívio. Enxotando para longe de nós, tudo o que eu sinto e que também te deixa aflito. E agora, sou eu quem tanto tenta mandar embora, para fora, e sem volta! Toda a minha insanidade. Que apesar de forte e insistente. Sorrateira e inconveniente. Sabe que a partir de agora, neste corpo não faz mais morada. Nessa habitação não há mais espaço para vagas. O que não é querido, não é bem-vindo. E o que não acrescenta, não entra. E a ti, loucura indesejada, eu mando as minhas sinceras condolências. Porque aqui estou velando todo o mal que fizeste na minha existência. Foi muito árduo o trabalho para chegar aqui, e assumo que sozinha, realmente não conseguiria. Mas as mãos estendidas agora estão sendo agarradas. Por mim, eu coloco nas tuas mãos tudo o que é meu e tudo o que está na minha alçada. Minhas mãos, meus pés, minhas pernas, meus braços. Todos os meus membros estão enlaçados. No teu corpo que tanto se encaixa no meu. O meu sorriso que sorri mais gostoso quando vê o seu. E meu espírito que entende o que é calma quando respira fundo e encontra no teu peito o perfume da tua alma. A plenitude meu amor, está logo em seguida depois da primeira queda diante a nossa maior dificuldade. Mas eu me ergo, me apoio em ti e dentro dos teus olhos eu vejo a força que você tanto me diz que eu tenho em mim. Nos teus olhos, nos meus sonhos e no nosso riso fácil. Eu entendo finalmente o que me trouxe, o que me mantém e o que me faz confiar que existe felicidade próspera nas profundezas da eternidade. É a pura beleza que você vê em mim e que o meu reflexo reluz em você. A nossa. Única. Intimidade.

Mudar Para Ficar

Eu já perdi a conta de quantas vezes me peguei pensando sobre como falar sobre isso. 
O ponto é, eu mudei de país! Por mais incrível que isso seja, as coisas poderiam ser tão simples quanto essa frase miúda realmente aparenta ser. 
Há uns cinco anos, ou mais, eu já vinha esperando, me preparando e ansiando por essa novidade. A verdade é que, desde que eu me entendo por gente, eu espero por esse momento. 
A minha mudança para os Estados Unidos sempre foi um assunto tratado como uma certeza, porém completamente inesperada. Todos sabiam que um dia ia acontecer, mas ninguém sabia como, nem quando ou por quê.
Desde pequena todos os meus amiguinhos sabiam que meu pai morava no exterior. Os anos foram passando e a informação permanecia a mesma. É, meu pai mora lá sim. A vida continuou acontecendo e ele continuou longe de mim. 
A primeira vez que eu o vi, pessoalmente, foi aos doze anos de idade, no desembarque do aeroporto. Aos prantos ele me abraçava e eu chorava junto por não conseguir entender que aquele homem que me amassava era o tal pai que eu nunca pude conhecer. 
Nós sempre mantivemos contato. Sempre. Minha mãe fez muita questão de mantê-lo o mais próximo possível de mim. Não somente pelas questões básicas do crescimento de uma criança, mas ela sempre tentou ao máximo que eu tivesse com ele uma relação de respeito e carinho. 
Ainda que essa última parte tenha sido construída a muito custo, todos os esforços surtiram resultado e meu afeto se tornou espontâneos e querido, assim que meu coração permitiu. E ainda bem que permitiu.
Depois disso, eu só o vi uma outra vez, quatro anos depois. Com vinte um anos de vida, essa é a terceira vez que eu vejo meu pai e a primeira vez que eu consigo chamá-lo assim e não me sentir tão estranha por isso. É incrível.
Em absolutamente nenhum aspecto, mudar de país é uma coisa fácil. Seja por algum tempo, a estudo ou uma longa viagem. No meu caso, mudar para ficar, parece a opção mais complicada de todas. 
A essa altura do campeonato, com toda a situação que estamos vivendo no nosso país tropical abençoado por Deus, conseguir essa mudança foi uma vitória e um alívio.
A vitória de termos conseguido a tanto custo que isso tudo se realizasse (mesmo). E um alívio de respirar fundo e sentir que as portas que sempre estiveram fechadas, agora podem se abrir. É uma sensação de liberdade quase palpável dentro de um mundo inteiro de oportunidades.
Em todo esse processo de mudança, eu doei roupas, sapatos, cadernos, livros e até canetas. Eu me desfiz de tudo o que eu era personificada em objetos. Levar comigo qualquer coisa além do essencial parecia obsoleto, sem sentido e excesso de bagagem.
Eu me resumi a uma mala com algumas roupas, mais pares de sapato do que eu achei que tinha e sentimentos dos mais variados desde o primeiro dia arrumando tudo até a última chance de fechar o zíper.
Antes de ter a certeza absoluta que o dia da partida ia mesmo chegar, muita coisa aconteceu. 
Eu tranquei a faculdade no quinto período do curso de Direito. Vi o nascimento do presente mais lindo de Deus e ainda por cima me tornei sua madrinha. Carreguei com forças que até hoje não sei da onde vieram, um trabalho que me fez crescer muito, e também sofrer quase na mesma proporção. E, graças a Deus, pra me ajudar em completamente tudo, eu me apaixonei por uma pessoa incrível.
Uma vida inteira aconteceu antes que a vida que eu tanto esperava começasse a acontecer. E então no dia 20 de maio eu me despedi. Com um coração cheinho de amor e esperança, de tudo e todos que me fizeram ser quem eu simplesmente sou. 
E eu consegui o que eu mais queria, dizer até logo ao invés de adeus, e com um sorriso no rosto ao invés de lágrimas nos olhos. Porque por mais que tudo isso ainda seja tão radical, eu sei que é a melhor chance que a vida está me dando para eu finalmente ser o melhor que eu posso ser.